Friday, December 29, 2006

Livros do imortal Antônio Carlos Secchin


Acabei de receber pelos Correios três livros do imortal da ABL Antônio Carlos Secchin.

Adoro ganhar livros! Estes vieram das mãos do nobre imortal. Adorei!

Recentemente a comunidade "Discutindo Literatura" entrevistou Secchin. A entrevista foi publicada na site Cronópios:

Discutindo literatura com Antônio Carlos Secchin
Por vários autores/Antônio Carlos Secchin

Moderadora: Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ), poeta, professora de língua portuguesa, redação e literatura, atual presidente da Academia Itaperunense de Letras

A comunidade Discutindo Literatura no Orkut entrevistou, entre os dias oito e 18 de dezembro de 2006, o ensaísta, pesquisador, poeta, professor e membro da Academia Brasileira de Letras Antônio Carlos Secchin



Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): Boa tarde, Secchin! A comunidade Discutindo Literatura sente-se honrada com a oportunidade de dialogar com você. Pode falar um pouco sobre seu livro João Cabral: a poesia do menos?

Secchin - João Cabral: a poesia do menos foi meu primeiro livro de ensaios, o único que dediquei inteiramente a um só autor. Reúne a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, e rendeu uma amizade que cultivei até o fim da vida do grande poeta.

Flávia Amparo (Rio de Janeiro/RJ): Professor Secchin, como fica a poesia numa época em que as pessoas quase não param mais para saborear um bom texto e preferem mais as mensagens rápidas, e muitas vezes, de pouco conteúdo?

Secchin - Como fica a poesia? Fica. A mensagem rápida? Passa. Contra esse culto desvairado do descartável, é bom que haja um espaço para divagar... devagar.

Camila Micheletti (São Paulo/SP): Olá Secchin, é uma grande honra e satisfação falar com você. Gostaria de saber a sua opinião sobre a internet, os blogs, a poesia que surge na rede... O que você acha disso tudo? Você costuma ler poesia na internet? Tem encontrado versos que valham a pena? Pode citar alguns poetas desta nova geração? Um abraço e muitíssimo obrigada pela oportunidade!

Secchin - Olá, Camila! Como sou um fanático pelo objeto-livro, confesso que é quase sempre dessa forma que procuro ler poemas ou ficção. Uso muito a Internet, mas para fins, digamos, mais pragmáticos: enviar mensagens, obter informações. Sinto falta do suporte-papel: tudo que NÂO é sólido se desmancha no ar da telinha...

Ernesto Von Rücke (Viçosa/MG): Qual é a sua concepção do ofício de poetar? Que qualidades precisam ter o poeta? É possível ensinar-se esse ofício? O que acha de introduzir nos cursos de letras disciplinas voltadas para o treinamento do ofício de escritor e poeta? Um grande abraço e congratulações pelo merecido reconhecimento que lhe é devotado.

Secchin - Caro Ernesto, oriento há anos uma Oficina da Escrita, na UFRJ, e na primeira aula logo aviso que, sem prévia aptidão, ninguém sairá dali com diploma de poeta (rs)... Poesia não se ensina, mas a técnica, sim, se transmite. Com ela, a técnica, os alunos farão bons ou maus poemas... Sem ela, não farão nada... Um abraço.

Lucia Fatima Araújo (Caicó/RN): Qual é a melhor maneira de trabalhar a Literatura em sala de aula? O que fazer para encantar o aluno?

Secchin - Prezada Lucia Fatima, creio que o primeiro requisito é o professor gostar muito do seu ofício, e do texto que vai apresentar. Sem essa empatia inicial, tudo o mais fica prejudicado. Depois, é necessário contextualizar bem o poema, esclarecer o vocabulário, preparar o terreno, enfim, para a fruição do texto - a literatura pode ser vista não apenas como fonte de informação ou conhecimento, mas também como fonte de prazer. Um abraço.

Gean Gonçalves (Guarulhus/SP): Olá... Poxa, que bom poder fazer uma pergunta para um `imortal`...1-Tenho curiosidade em saber, quanto cada membro da academia conhece do trabalho dos outros membros...2-E levando em conta que seja necessário todo mundo ler todo mundo, qual livro do Paulo Coelho você leu?3-Sei que você é especialista em Machado de Assis, quero te fazer a pergunta que não quer calar, rs, Capitu traiu Bentinho?Grata pela atenção.

Secchin - Cara Jean: 1) Cada membro da Academia conhece dos outros o necessário para reavaliar se fez bem ou não em dar-lhe (ou negar-lhe, rs) o voto; 2) Como entrei depois de Paulo Coelho, caberia a ele ter lido algo de minha autoria para saber se me daria o voto. Há muito tempo fui não leitor, mas, digamos, ouvinte dele, naquelas parcerias com Raul Seixas; 3) Josué Montello diz que sim, Helen Caldwell diz que não. Quem é o verdadeiro pai de Ezequiel? Acho que resolvi o problema: Machado de Assis. Criador de "Dom Casmurro", tornou-se o pai de todos seus personagens... Um abraço.

Cris Alvarez (Belo Horizonte/MG): Antes de tudo, que alegria e que honra, poder participar desta entrevista com o nosso mais jovem imortal. Obrigada, querida Luciana, por nos proporcionar este momento, e obrigada, Antônio Secchin, por ter aceitado o convite.
No seu ensaio Poesia e desordem, você escreveu que "A poesia representa a fulguração da desordem, o mau caminho do bom-senso, o sangramento inestancável da linguagem, não prometendo nada além de rituais para deus nenhum".Gostaria que nos falasse um pouco sobre esta concepção, que me encantou... Sobre a palavra na poesia e seu descomprometimento com um sentido real ou inventado... Ou seja, na poesia, a palavra, antes que um meio, não seria o próprio fim?

Secchin - Prezada Cris, você foi direta ao ponto: a resistência da palavra poética frente ao que quer que lhe seja pré-determinado, e simultaneamente a reafirmação de seu compromisso indissolúvel e inadiável com sua especificidade (literária) e sua capacidade de erguer um mundo a partir da forma, e não como reflexo ou confirmação de conteúdos... Abraço.

Fabio Lucas (Brasil): Tempo e poesia: técnica? Li um pequeno ensaio sobre a importância da poesia, por Octavio Paz, chamado A outra voz, onde entre outras coisas ele chama a atenção do tempo presente para o poeta, atacando o conceito de “pós-moderno”, que seria "prisioneiro do tempo sucessivo, linear e progressivo".
Qual a sua opinião sobre o papel do "agora" para os poetas - seria fonte de angústia ou de libertação? Por exemplo, para João Cabral?No mesmo ensaio, Paz escreve: "A poesia é o antídoto da técnica e do mercado". Então a técnica e o mercado seriam venenos, e os livros, o fruto amaldiçoado? Para não perder o embalo, os poetas também não podem ser considerados "técnicos da palavra"? Abraço.

Secchin - Caro Fábio, se me permite citar dois versos da autoria de ACSecchin (um outro que de vez em quando me visita): "Indiferente à sorte ou ao inferno/ Não tenho tempo para ser eterno". A cronologia do poema se faz fora do relógio. Vivemos milimetrados e cronometrados. A questão - que você tão bem expressou - é como situar no "mercado" uma produção intrinsecamente antimercadológica, a supor que é desejável expandir o consumo da poesia. Abraço.

Selmo Vasconcellos (Porto Velho/RO): 1) A OPINIÃO DO POETA É IMPORTANTE NA SOCIEDADE? 2) COMO É SEU DIA-A-DIA ? 3) UM POEMA PODE SER CONSEGUIDO NA PRIMEIRA TENTATIVA ? Abraços fraternos e admiração.

Secchin - Caro Selmo, 1) a opinião do poeta poderia ser importante, mas quem ouve ou lê os poetas? Por isso, são necessárias as comunidades em prol da literatura, como a que você mantém. 2) Um dia-a-dia-atribulado, entre compromissos universitários e acadêmicos. Mas sempre com algum tempo para leitura e, se possível, escrita. 3) João Cabral dizia que, se um poema lhe vinha fácil demais, provavelmente não era dele, deveria ser eco ou lembrança de texto alheio. Acho que os aquinhoados com esse dom (da espontaneidade criadora) devem reelaborá-lo depois, em vez de contentar-se com ele. É sempre possível dizer melhor tudo o que se diz. Um abraço.

Camélia La Branca (Belo Horizonte/MG): Muito prazer Antonio Carlos Secchin! Atualmente, tanto escritores quanto leitores se preocupam com o futuro do livro. Já que temos tudo na internet, será que o livro de papel está com seus dias contados? Dê-nos sua opinião a este respeito e sobre a importância da poesia em nosso dia-a-dia. Antecipo meus agradecimentos.... Abraço!

Secchin - Olá, Camélia! Como sua interessante pergunta era próxima de uma anterior, permito-me reproduzir a resposta que dei à questão: "Como sou um fanático pelo objeto-livro, confesso que é quase sempre dessa forma que procuro ler poemas ou ficção. Uso muito a Internet, mas para fins, digamos, mais pragmáticos: enviar mensagens, obter informações. Sinto falta do suporte-papel: tudo que NÂO é sólido se desmancha no ar da telinha...". Um abraço.

Antonio Moraes (São Paulo/SP): Caro Professor, dentre as análises sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, considero o estudo de John Gledson o melhor, mais profundo e mais realista. Qual é a sua opinião, e qual o melhor estudo a respeito? Grato. Abraços.

Secchin - caro Antonio, há excelentes leituras de Machado, que, a meu ver, não deveriam necessariamente se excluir. Conhece as mais recentes de Alfredo Bosi? Em breve, vai sair, pela Companhia das Letras, um livro de Sergio Paulo Rouanet; tive acesso a alguns capítulos, ótimos. Gledson é bastante criterioso e inteligente, na linhagem (confessa) de Roberto Schwarz. O maior problema das abordagens sociológicas é sua tendência, digamos, alegorizante: "isso" quer dizer/representar "aquilo", e ponto final; quando, a rigor, "isso" pode ser "aquilo" e ser muito mais coisas ao mesmo tempo. Um abraço.

Antoniel Campos (Natal/RN): Caríssimo Antonio Carlos Secchin, Poesia de Invenção - Poesia Neobarroca - Poesia Neosimbolista - Poesia Neo... Na sua opinião, o panorama poético do país se expande ou se afunila?
Secchin - Acho que se expande, caro Nataniel, até as raias da dispersão total (rs)... Nunca se escreveu tanto, nos mais variados veículos - e isso é bom. Escrita como jogo, como desabafo íntimo, como libelo social, como neo-etc. Daí a supor que tudo tenha o mesmo valor, ou que a própria noção de "valor" não tenha valor é outra história. Sim, vamos nos expandir. Depois vem a decantação, vem o tempo, e nos afunila... Abraço.

José Carlos Santos Peres (Avaré/SP): Professor, tê-lo disponível permite-nos (a "nóis", os mais crus em literatura, aprendizes que somos do ofício. Mais entortadores de palavras que artífices dela) apreender do universo informações que são fundamentais a esse fazer. Daí, por favor, faça-me entender o que vem a ser "epifania", esse tal de momento mágico tão falado pelos nossos poetas.

Secchin - Epifania é entendida como "iluminação" ou "revelação" profana. Um momento que se destaca do cinzento cotidiano e de repente se abre para sentidos e percepções inesperadas. Melhor não defini-la: quando você experimentar uma, saberá do que se trata. E poderá dizer: "Epifania, já tive uma! Não é privativa de Clarice Lispector" (rs).

Márcio Andrade (Belém/PA): Prezado Antonio Carlos Secchin, para que escrever? Para quem escrever? Abraços e agradecido por sua colaboração.

Secchin - Escrever para quê ou para quem? O que caracteriza a literatura, a partir do Romantismo, é exatamente essa perda de referencial, desse conforto de se saber para quê e para quem serve a literatura. Acho fecunda a idéia, defendida por vários, da radical "inutilidade" da escrita, numa sociedade em que tudo tem de "servir para" algo. Manoel de Barros fala da arte como "inutensílio". Cabral escreveu um poema chamado "O artista inconfessável", publicado em Museu de Tudo. Se puder, leia-o, e diga-me o que achou.

Cris Alvarez (Belo Horizonte/MG): Caro Secchin, Quando lhe pediram para falar um pouco sobre ele mesmo Quintana soltou uma pérola - entre tantas - "toda confissão não transfigurada pela arte é indecente." Para completar: "Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão". Queria lhe pedir para falar um pouco sobre você... Sobre seu encontro com a palavra e a poesia... Sua poesia, Secchin, também é uma confissão? Existe poesia que não o seja, de uma forma ou de outra?

Secchin - Poesia é confissão? Diria que é con-ficção. Uma ficção partilhada entre os vários eus do poeta e os inúmeros e incontroláveis eus dos leitores. De tanto fingirmos que dizemos a verdade, acabamos por dizê-la, em meio a mil e duas mentiras. Os mais sagazes saberão pinçar o fio "verdadeiro" emaranhado a muita ficção. Mas, ainda assim, não saberão muito bem o que fazer com ele, não saberão onde ele começa, nem perceberão seus desdobramentos... Talvez - menos do que fio - de mim e do outro estejamos condenados a só saber um fiapo de verdade.

Ivanaldo Xavier (Mossoró/RN): Caro Secchin, o assunto "inspiração" sempre gerou um pouco de polêmica. Alguns dizem tê-la como geradora das suas "crias" e outros dizem que não existe e usam como argumentos para construírem as suas obras os próprios acontecimentos do dia-a-dia. Afinal, a inspiração é um elemento presente nas suas obras e se presente, como sente a sua presença para desencadear o processo de criação dos seus poemas?

Secchin- Acredito, sim, na inspiração - que é o que faz uma página, antes em branco, ser ferida por uma frase que detona o silêncio. Mas, a partir dessa eclosão - para mim, fonte de mistério -, o escritor passa, conscientemente, a ser responsável por uma seqüência onde o acaso também atua, mas, digamos, já administrado pela inteligência criadora, visando a determinado efeito. O começo é imprevisto, chamemos isso de inspiração.

Maria Lucia de Almeida (Belo Horizonte/MG): Boa noite, Secchin "Ser poeta é estar fora de lugar para um número expressivo de cidadãos." Você concorda com esta frase? Ainda é grande o preconceito das pessoas com relação ao poeta, acreditando ser ele um eterno sonhador que não se adapta ao contexto de realidade?

Secchin - Interessante a frase - "Ser poeta é estar fora de lugar para um número expressivo de cidadãos". Mas acho que ser poeta - independentemente dos cidadãos - é estar, primordialmente, fora de si mesmo, nas inúmeras máscaras que velam o rosto do escritor, simulando demonstrá-lo. Esse jogo de ser outro é dos maiores fascínios da aventura poética. Quando alguém se exaspera, dizem que está fora de si. O poeta é um exasperado profissional.

Antonio Seixas (Magé/RJ): Acadêmico Antônio Carlos Secchin, na sua concepção, como sucessor de Alcindo Guanabara na cadeira n.º 19, da ABL, como, atualmente, se relacionam a imprensa e a literatura brasileira?
Secchin - Fica difícil definir o relacionamento imprensa/literatura: um e outro termo têm tantos desdobramentos, que, quando duas pessoas os evocam, talvez estejam ambas falando de coisas distintas... Mas, supondo que "literatura" se refira à produção mais elaborada, e "imprensa" aos suplementos culturais que dela se ocupam, lamento, na maioria dos suplementos, a tendência a duas manifestações, que acabam criando um abismo entre a obra e o leitor: ou a resenha tipo release, sem nenhum teor crítico, quase peça publicitária, ou o artigo como exibição de saber pós-graduado, ostentando um pedantismo arrevezado que atemoriza e afasta o leitor.
Paulo Renato Lino Rodrigues (Porto Alegre/RS): Compulsão? Caríssimo Secchin, escrever será um impulso que nasce de um desejo ou um ato incoercível? Somos o quê? Sonhadores ou irremediáveis loucos, ainda que de paixão pelas letras? Abraço.

Secchin - Como qualquer outro ofício, escrever é uma vocação. Como qualquer vocação, muitos que a têm não a exercitam, e muitos que dela não dispõem a ela se arriscam. Como vê, a possibilidade de a coisa não dar certo é grande (rs).

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): A Revista Língua Portuguesa (Ano II, nº 13) traz uma matéria sobre Camões onde diz que a artista portuguesa Gisela Cañamero, do grupo Arte Pública (núcleo profissional da Associação de Artes Performáticas de Beja, na região de Alentejo), adaptou 15 sonetos do autor para o rap. Segundo Gisela, a letra dos poemas, simplesmente `encaixa-se` no ritmo. A intenção é fazer circular a palavra do poeta. Você aprova essa iniciativa? Por quê?

Secchin - Misturar Camões com o rap? Bom, a princípio, qualquer mistura é possível, mas, no caso, acho difícil dar liga. Algum fã do rap vai se motivar a ler Os Lusíadas? Algum leitor de Camões vai saracotear nos embalos de sábado à noite? Está aí um casamento que tem tudo para fazer infelizes ambos os cônjuges.

Mano Melo (Rio de Janeiro/RJ

Secchin - Caro poeta, acho válidos TODOS os meios de divulgar a poesia: no livro, nas canções, em recitais, em fila de banco, até em reunião de condomínio (rs). O que deveria ser sempre levado em conta é a natureza do público a quem o poeta se dirige. Cada texto tem o ouvinte/leitor que merece, e acho importante estar atento a essa adequação. João Cabral, sagazmente, já havia falado em "poemas em voz alta" e outros, que demandavam silêncio e introspecção. Abraço.

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): Uma pergunta da Revista EntreLivros: Qual das personagens da literatura nacional povoa o nosso imaginário cultural e representa a `cara` do Brasil?

Secchin - Nenhum personagem representa a cara do Brasil, porque o país não cabe numa cara só. Mas vários podem representar facetas expressivas desse poliedro chamado Brasil. Por que não pensar nos visionários, nos loucos? A galeria machadiana é pródiga em tais tipos. Por que não pensar nos realistas, aproveitadores, oportunistas? A galeria machadiana é pródiga em tais tipos. Acho que em Machado encontramos nossa mais completa e complexa tipologia - do que somos e de nossas ausências, na ânsia de ser o que jamais seremos.

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): Arnaldo Antunes disse que a poesia só tem a ganhar quando se contamina com outros códigos, pois alcança outros públicos e faz descobertas de linguagem. Você concorda com essa afirmação?

Secchin - É possível que a poesia "só tenha a ganhar" na contaminação com outros códigos; o problema é que, com isso, talvez só tenha a perder consigo mesma. Na compulsão a esse apoio externo, não poderia haver a confissão de uma insuficiência intrínseca? A poesia deveria dialogar com esses códigos para enriquecê-los, e não para buscar sua própria legitimação através deles.

Luiz Henrique (Antonina/PR): O poeta é profanado pelo eu ou o eu é profanado pelo poeta?

Secchin - Acho difícil falar em "eu" na poesia. O poeta, mesmo quando fala sozinho, já está na primeira pessoal do plural. Está sempre acompanhado de seus "outros" em que se reconhece e se desconhece, de seus muitos - em todos os sentidos - "nós".

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): O poeta crítico é vesgo? "Acho que os poetas que fazem crítica, primeiro, estão desaparelhados tecnicamente e, segundo, fazem a crítica da poesia deles, fazem projeções da poesia deles, discordam do que é diferente deles. Então, o poeta crítico é vesgo. Os poetas não costumam ser capazes de aprofundar a leitura de poemas alheios, porque não estão instrumentalizados." - Eduardo Portella, ensaísta, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras. Depoimento dado durante o III Ciclo de Conferências "Caminhos do Crítico", na Academia Brasileira de Letras, em 31 de maio de 2005.

Secchin - A incapacidade de perceber/aceitar diferença não é exclusiva de nenhuma seara da escrita, depende das formação/inteligência/sensibilidade de cada um, e não do gênero literário que se pratica. Um crítico de estreito horizonte sociológico, por exemplo, não tenderia a rejeitar tudo que não lhe soasse como explícito "reflexo do real"? Assim, estaria aprisionado em estreiteza perceptiva análoga à do poeta que só acatasse seus sósias. Em prol de Portella - que não é nada dogmático -, observo que ele fala do poeta "desaparelhado" como tendência,não como regra. E as exceções à regra são numerosas. Sem falar nos que exercem a crítica DENTRO da poesia, como João Cabral. Ou nos que praticam a poesia DENTRO da crítica, como Roland Barthes.

Flávia Amparo (Rio de Janeiro/RJ): Sina de poeta. Já ouvi muitos escritores falarem que ser poeta é uma sina, uma marca, alguns chegam a falar em maldição! O poeta ainda é esse ser "à margem"? Essa vocação vem da experiência ou é um dom inato?

Secchin –

Um poeta nunca sabe

Onde sua voz termina,

Se é dele de fato a voz

Que no seu livro se assina.

Nem sabe se a vida alheia

É seu pasto de rapina,

Ou se o outro é quem lhe invade,

Com voragem assassina.

Nenhum poeta conhece

Esse motor que domina

O calor de um texto escrito

Como ninguém determina.

Entender inteiro o poeta

É bem malsinada sina:

Quando o pensamos em cena,

Já vai sumido na esquina,

E só reconhece o avesso

Do que o poema lhe ensina.

Em meio a zona de sombra,

Se lança contra a neblina,

Mesmo que seja precária

A poesia que o ilumina.

Flávia Amparo - Obrigada, Secchin, por sua resposta bela e lírica! Adorei!!!
Do outro lado da esquina, a leitora responde:

A leitora nunca sabe

onde seu olhar atinge,

avista na escura estrada

o poeta como esfinge.

Nas névoas, não se revela

se ele sofre ou finge,

mas a poesia,

liberta,

de todas cores se tinge.

Obrigada pela sua atenção e parabéns pelas ótimas respostas na entrevista.Abraço.

Secchin - Gostei muito de sua réplica ao poema, que nasceu motivado pela pergunta que você me formulou. Aliás, escrevi o texto em cinco minutos, e levei apenas 18 horas para aperfeiçoá-lo (rs). Agradeço o constante interesse e lhe enviarei em breve a versão definitiva do poema, que apresentarei quarta-feira num evento em Salvador.
Chris Herrmann (Alemanha): Secchin - Primeiro, agradeço muito o gentil convite da Luciana para participar de sua entrevista. É um prazer conhecê-lo. Antonio, há muitos anos não moro no Brasil, mas sou carioca e estudei na UFRJ (Licenciatura em Letras/Pt-Literaturas) de 81 a 84 (quando era ainda no Centro, antes do prédio da Letras ficar pronto na Cidade Universitária). Tenho curiosidade sobre o que mudou em Letras na UFRJ daquela época para cá, principalmente na programação das disciplinas. Lembro que nem todas as faculdades de Letras davam ênfase ao estudo de Grego e Latim como acontecia com a UFRJ, o que eu admirava muito e procurei aproveitar o máximo do que me foi proporcionado lá com excelentes professores. Você poderia dar um “panorama geral” do que mudou em termos de ensino, ou do que não mudou (e o porquê) nas últimas duas décadas? Claro que o espaço é pequeno para tantos detalhes, mas talvez você possa nos dar dicas de como tem sido a nova orientação na programação da universidade nos últimos anos. Obrigada.

Secchin - Puxa, quanta coisa mudou entre 1970 (quando comecei a cursar a graduação) e hoje, quando já estou prestes a me aposentar. No período em que se formou, eu já era professor da Faculdade, mas não creio que você tenha sido minha aluna. Sugiro que, no Orkut, acesse "letras ufrj". A partir daí, encontrará várias comunidades de colegas e amigos, inclusive de pessoas que freqüentaram o mítico e saudoso "barracão" da avenida Chile! PS: o currículo ainda é o mesmo...

Denise Figueiredo (Rio de Janeiro/RJ): Uma anciã na faculdade. Agradeço imenso o gentil convite da Luciana para participar de sua entrevista. É um prazer conhecê-lo. Mesmo porque em 2007 estarei freqüentando a faculdade de Letras, não da UFRJ, mas estarei. Aos 54 anos voltei a estudar e hoje aos 57 espero depois de muita luta começar mais um sonho realizado. Escrevo, mas quero ter base. Qual sua opinião dos formandos da terceira idade, pois farei curso regular, sem desejo de lecionar. Desde já não abrirei mão de fazê-lo, seja qual for sua opinião, mas será de grande valia, nela procurarei ajeitar possíveis deslizes e vícios do tempo. Abraços e ansiosa aqui no Rio de Janeiro.

Secchin - Que beleza, manter vivo o interesse em estudar sistematicamente a literatura, quando tantos a desconsideram! Porém lhe peço mais: que seja uma das primeiras alunas do curso, ok? De vez em quando me mostre o boletim (rs)! E muito boa-sorte na nova vida universitária.

Denise - Agradecida Antonio. Realmente!!!... Colocarei sua mensagem na capa de meus cadernos e no mural de meu quarto as manterei sempre bem vivas. obrigada!


Chris Herrmann (Alemanha): Caro Antonio, obrigada pela resposta. Eu morri de rir com o "barracão da Av. Chile" :-) (e não é exagero chamá-lo assim). Obrigada pela dica, vou dar uma olhada sim e, quem sabe, reencontrar amigos que tenham estudado comigo lá no "barracão"... rs... Mudando a prosa para a poesia, gostei muito do que você disse: " (...) Esse jogo de ser outro é dos maiores fascínios da aventura poética. Quando alguém se exaspera, dizem que está fora de si. O poeta é um exasperado profissional." Muitos confundem poesia com confissão mesmo, não só público leitor, mas "aspirantes poetas". Para você, essa confusão já seria um sinal de falta de dom ou apenas falta de informação/formação literária? No caso dos iniciantes, como se chegar à uma avaliação (de dom) mais efetiva? O que você sugere? Abraços.

Secchin - Pois é, trata-se da confusão entre a confissão e a "con-ficção", como nomeei algumas respostas atrás. É bem grande o número dos que pensam ser a poesia a exteriorização não-elaborada de "sinceros sentimentos", e esse equívoco a gente vai cobrar do Romantismo até o final dos tempos; não que ele, Romantismo, tenha feito isso, mas fingiu que fez - e muita gente ainda acredita.

Everaldo Freire (Garanhuns/PE): Literatura e ensino... Prof. Secchin, gostaria de saber qual deveria ser o objetivo do ensino de literatura no Ensino Médio e suas sugestões de como inseri-la no Fundamental já que neste nível não há recomendações claras nos PCN, por exemplo... Um abraço de Mbaracagüpe - terra de Aribé e Aperipê...

Secchin - De modo quase brutal, eu diria que o ensino da literatura serve para mudar a vida - de quem ensina e de quem aprende -, ou não terá servido para nada. O livro, porém, é objeto distante da realidade do aluno de ensino médio, que dirá dos alunos do ensino fundamental. Creio que o lado lúdico e prazeroso das letras pode ser a chave de acesso para que os jovens acedam ao universo da literatura. Gravei este ano um programa/depoimento onde desenvolvi algumas idéias, e que vai servir para um curso de capacitação de professores do ensino médio. Mantenha contato, pois, assim que o material ficar pronto, eu lhe informarei a respeito.

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): Algumas perguntas: Secchin, pode falar um pouco sobre: A) a leitura como co-criação? A) suas primeiras experiências com a poesia? C) seus projetos (no que tange à literatura, claro!) para 2007? A escolarização da literatura... Secchin, por favor, pode falar sobre a afirmação abaixo?"A escola legitima concepções, firma noções e promove comportamentos que se transformam em constitutivos do sedimento da memória discursiva do sujeito. A escola está na base das identidades lingüística e nacional. A escolarização da literatura, como vimos, tem alto desempenho nesse processo e está intimamente vinculada com a inscrição – primeira e irrepetível – na linguagem letrada." (Street, 1984)


E sobre a investigação, o sabor e o prazer ?"Barthes insiste na dimensão do desejo a impulsionar o processo de investigação literária e a sua conseqüente escritura. Ao falar da pesquisa na nossa área, o pensador francês destaca a necessidade de escrever, de dizer-se e colocar-se no branco da página. Nesse processo de escritura, ele fala da necessidade de uma paixão que deve estar sempre presente. É nesse ponto que gostaria de deter-me um pouco, pois acho que, às vezes, o peso institucional é muito árduo para se carregar e acabamosenveredando por caminhos de investigação, que, nem sempre correspondem aos nossos desejos mais íntimos. Como todos sabemos bem, ao ingressarmos num programa de mestrado ou de doutorado, imediatamente tomamos contacto com um ramalhete de linhas de pesquisa, às quais nossos possíveis orientadores estão vinculados e sob a égide das quais eles apóiam a suas respectivas produções intelectuais e inclusive a sua ação como orientadores. É necessário um recorte seletivo, senão corremos o risco de nos portar como bombas de fragmentação, que, de acordo com modismos, centenários de nascimento e morte de autores, prêmios Nobel e Congressos da hora acabamos nos envolvendo com áreas e objetos de estudo que nem sempre correspondem aos nossos desejos mais íntimos de investigação. Volto a insistir na idéia do desejo descortinado pela citação de Barthes. Isto é, é necessária a busca do saber, construção do conhecimento, mas também, o sabor e, no nosso caso, tratando-se de Literatura, o sabor e o prazer que só um bomtexto literário pode nos proporcionar."(Gerson Luiz Roani)
Segundo Ferreira Gullar, "João Cabral é um poeta que se refugiou na linguagem, mas reinicia a cada momento a tarefa de reaver o mundo perdido; já os concretistas se refugiaram na palavra, mas a tomaram como a `verdadeira realidade`, como fetiche." (In: "Indagações de Hoje". p. 180). Você concorda com essa observação que o Gullar faz do Concretismo?

Você conhece um conceito que se chama copyleft? O que acha dessa idéia?

Corpo, matéria e prazer Secchin, pode falar um pouco a respeito de sua análise do erotismo presente nos poemas souseanos, comumente associados ao transcendentalismo e espiritualismo? A poesia e o silêncio Você disse no poema "Arte", que "Poemas são palavras e presságios". Pergunto: a poesia ama o silêncio?
Acredito que você, como acontecia com Drummond, deve receber muitos originais para ler e comentar... rs... Drummond até fez um poema sobre o assunto:

APELO A MEUS DESSEMELHANTES EM FAVOR DA PAZ

Ah, não me tragam originais

para ler, para corrigir, para louvar

sobretudo, para louvar.

Não sou leitor do mundo

nem espelho

de figuras que amam refetir-se

no outro

à falta de retrato interior.

Sou o Velho Cansado

que adora o seu cansaço

e não o quer

submisso ao vão comércio da palavra.

Poupem-me,

por favor ou por desprezo,

se não querem poupar-me por amor.

Não leio mais,

não posso, que este tempo

a mim distribuído

cai do ramo e azuleja o chão varrido.(...)

Geralmente, qual é a sua reação? Lê? Comenta? Ignora?

Secchin - Vou tentar responder todas as suas perguntas, se faltar alguma me avise antes da meia-noite (rs), quando se encerra o a entrevista. Leitura como co-criação? É no que acredito. Criar, interpretativamente, a partir do texto literário, mas com o cuidado de não extrapolar. Fala-se em direito autoral, eu defendo, também, o direito "leitoral". Muitas obras tornam-se maiores pela acuidade de quem as lê, independentemente da "intenção" do autor.
Meu primeiro contato com a poesia se deu, suponho, aos quatro anos, quando, no percurso entre Cachoeiro de Itapemirim e Marataízes, meu pai me disse: "Você vai ver o mar". Essa possibilidade de ante-sonhar o que (ainda) não é real - e talvez nem precise sê-lo - me parece uma das intensas fontes da poesia.Em 2007, espero que saiam as duas edições que preparei para a Nova Aguilar: as obras de João Cabral e de Ferreira Gullar. Disponho de material para novo livro de ensaios, e torço para consiga escrever quatro ou cinco poema razoáveis; se permanecer no atual ritmo, meu próximo livro de poesia será lançado em outubro de 2117 (rs) e, como o otimismo não reconhece limites, conto com a presença de todos na festa de lançamento, marcada para o anel 2 de Saturno (rs).Não me encanta a perspectiva da escola como legitimadora ou confirmadora de conceitos ou condutas. Agrada-me a perspectiva antinormativa do texto transcrito de Gerson, que enfatiza, barthesianamente, o saber/ o sabor do inesperado, contra o dissabor do sentencioso ou do saber burocratizado.Concretos & Cabral? A meu ver, um caso de apropriação indébita. Jovens (em 1960) em busca de um belo, sólido, padrinho. E a vaidade do padrinho - infinitamente mais complexo - aceitando apadrinhá-los.Copyleft? O que é isso? Direitos autorais para autores canhotos?Cruz e Sousa, o etéreo... ma non troppo. Fiz uma leitura minuciosa de sua poesia, na tentativa de demonstrar que o recalque do erotismo terreno se transmuda numa erotização do divino. E assim, na sua poesia, se resolve a antiga querela: os anjos têm sexo.

PS para Luciana: A poesia ama o silêncio? Só retoricamente. Inclusive porque, quando elogia o silêncio, ela já o está contradizendo. Como dizer o silêncio, senão pelo paradoxo de uma fala que já não mais o contém?Quanto aos originais encaminhados pelos poetas, ou candidatos ao posto, a questão é muito delicada. Não disponho de tempo para atendê-los como eles talvez desejassem, mas nunca deixo de encaminhar mensagem, mínima que seja.


Luciana Pessanha Pires: Boa noite, Secchin! Copyleft? É um tipo especial de licença que ao mesmo tempo em que garante a propriedade intelectual, autoriza expressamente que os leitores reproduzam a obra à vontade, desde que não seja para fins comerciais. Se uma editora quer comercializar a obra, paga os direitos autorais. Se é para uso pessoal você pode comprar o livro ou então copiá-lo gratuitamente. A idéia é que, na verdade, quanto mais a obra circula, mesmo que seja através de cópias, mais ela vende. De cada vinte leitores que copiam, seguramente uns três ou quatro vão acabar comprando, porque ao gostar do texto não vão querer guardar as folhas grampeadas do xerox, mas sim a cópia durável e de bom acabamento do livro.


Maria Aparecida Loro (Santos/SP): Olá Secchin! Além do dom natural e de uma forma de expressão correta, o que faz um bom poeta ser diferenciado? Um abraço.

Secchin - O que faz um poeta ser diferenciado? Algo muito difícil de ser objetivamente demonstrado: uma relação TENSA com a linguagem, que não está a serviço de nada que não seja sua própria pujança e seus miseráveis limites...

Pedro Lyra (Campos dos Goytacazes/RJ): OS ESPAÇOS ATUAIS DA POESIA. Caro Secchin, antes de tudo, minhas congratulações pelo belo debate. Atendendo ao pedido da nossa querida Luciana (que já fez uma entrevista semelhante também comigo, aqui mesmo), gostaria de ler seu posicionamento sobre a presença da poesia no ciber-espaço, em confronto com a sua presença em espaços outros como o jornalístico e o televisivo.
PS: Creio que a editora lhe enviou para a Academia exemplares dos livros recentes, como lhe prometi.

Secchin - Obrigado, caro Pedro. De sua lavra, chegou-me às mãos o "Argumento- Poemythos globais", mas não os "50 poemas escolhidos pelo autor". Cyberespaço, recitais, tudo bem... Permita-me, porém, evocar Mallarmé: "tudo no mundo existe para acabar num livro!"

Camila Micheletti (São Paulo/SP): Olá Secchin, gostaria de saber quais poetas o senhor lê atualmente? E livros, quais são suas leituras mais recentes? Se tivesse que indicar um ou dois livros fundamentais para uma leitora iniciante, quais seriam eles? Obrigada mais uma vez pela valiosa contribuição para esta comunidade e para cada um de nós! Abraços!

Secchin - Eu lhe indicaria uma obra que, infelizmente, suponho estar fora do mercado: A Apresentação da poesia brasileira, seguida de antologia, por Manuel Bandeira. Terá de buscá-la nos sebos... É um roteiro precioso, para, a partir dele, você própria descobrir suas afinidades. Recentemente li, e gostei muito do livro, Praia provisória, de Adriano Espínola.

Laura Venslavicius (Argentina): Obrigada Luciana por me oferecer, mais uma vez, a oportunidade de conhecer novos e bons autores contemporâneos na sua língua. Na verdade, Antonio, lendo todas as perguntas e suas respostas a partir do começo da entrevista, estou aqui meio sem saber que perguntar mas com muita coisa aprendida.
Como argentina e hispano-falante perguntaria quais os autores argentinos (fora dos ultra-arqui-nomeados Borges ou Cortázar) que vc lê e conhece? Quais os latino-americanos?... E pergunto isto pq, por exemplo, em meu país, se alguém neste momento perguntasse por um autor brasileiro a resposta seria: Coelho (isso pq morreu Amado), mas a realidade infelizmente demonstra que o intercâmbio cultural deixa muito a desejar ainda. Aliás, e desculpe o atrevimento, fora da área acadêmica mais uma pergunta: como é o dia-a-dia de um poeta como vc, por exemplo. Quanto de inspiração nasce dessa realidade ou é pura abstração?Gratíssima!

Secchin - Agradeço-lhe o comentário. Minhas leituras em literatura hispano -americana (em particular, a Argentina) concentram-se, infelizmente, nos autores mais canônicos, não apenas porque minha atividade profissional é maciçamente voltada para a poesia brasileira, como porque apenas de modo tímido essa produção (poética) chega ao mercado editorial brasileiro, a exemplo da obra de Néstor Perlongher. Quanto ao movediço terreno da criação, tentei descrevê-lo, nesta entrevista, no poema dedicado a Flávia.

Carlos Arthur Newlands Junior (Rio de Janeiro/RJ): Provocações para o Secchin. Caro Secchin, agradeço o gentil convite da Luciana para participar de entrevista tão esclarecedora. Aprendi um bocado só lendo as perguntas e respostas anteriores. Queria apenas que você comentasse uma frase que li numa outra comunidade literária do orkut e que rendeu bastante celeuma: "poesia começa com transgressão". É isso mesmo, Secchin? Concordo plenamente com você que o Romantismo iludiu muita gente que até hoje pensa que desabafar em versos é fazer poesia - eu, que também tenho a ousadia de fazer poemas, escrevi num dos meus mais recentes "pois poesia não é desabafo - esta é arte!"; também estou convencido que a poesia rompe com a mesmice, o lugar-comum não é o lugar da poesia. Mas será realmente necessário transgredir?

Secchin - Concordo com você, Carlos: a "transgressão" compulsória se assemelha a um serviço militar, obrigatório. É a "surpresa" predeterminada para aparecer, e com isso perde a graça. A transgressão pode existir, sim - mas de dentro para fora, na insatisfação do poeta diante de seus próprios limites, não como cartilha da vanguarda, com receitas prêt-à-porter da melhor (mais rentável) maneira de transgredir.

Rosana Delicio (Presidente Prudente/SP): Literatura Feminina. Caro Professor, os estudos de literatura no feminino nos revelam uma poesia e prosa românticas, quase sempre dissociadas de criticidade para outros temas.Gostaria de saber sua opinião a respeito, e até quando esse eu lírico feminino há de reverenciar os ideais do Romantismo. Muito grata.

Secchin - Você tem razão, mas que as feministas não leiam sua pergunta! Pelo amor de Deus (ou de Deusa)!

Benvinda Palma: Caro Professor Sechin, sou escritora amadora... Uma amante da poesia... E gostaria que você me esclarecesse uma dúvida: até que ponto a pontuação faz-se necessária em um poema? Tenho observado que muitos escritores, poetas renomados, a têm abolido. Até onde a pontuação pode ajudar a enriquecer a poesia? Desculpe-me a simplicidade da pergunta... Mas, sinceramente, queria ouvir a opinião de uma pessoa consagrada como você, pois tenho muitas dúvidas com relação ao assunto! Muito obrigada por sua gentil atenção! Beijos.

Cláudia Gonçalves (Porto Alegre/RS): Agradeço a Luciana pelo convite para participar de uma entrevista tão enriquecedora, adorei tudo que li aqui. Bom dia professor Antonio Carlos Secchin! Eu sou poeta amadora, e tenho uma dúvida cruel na hora de escrever. Quanto à pontuação e uso da letra maiúscula em começo de frases, segundo o que tenho escutado não é usual na poesia moderna?!

Secchin - Para Cláudia e Benvinda: bem-vindas! Perguntas sobre pontuação, emprego de maiúsculas... Gosto também dessas questões técnicas. Respeito a opção por suprimir a pontuação. Embora até hoje não tenha descoberto o que o poema ganha com isso, além de uma voluntária - e fácil - complicação criada para o leitor. No que se refere à utilização de maiúsculas em início de verso, me lembro de trecho que li - há pelos menos uns trinta anos - num texto de Mário de Andrade. Mário reportava as sábias lições de um mestre espanhol. "Mestre, como escrever poesia?" "No começo, ponha maiúscula. No fim, ponha um ponto.". "E no meio?" "No meio, é preciso pôr talento".

Pedro Serra (São Paulo/SP): O PRECONCEITO. Nas escolas da periferia é onde o preconceito é forte. Muitos alunos de periferia ainda vêem a literatura e a poesia como alguma coisa feminina. Como o senhor trabalharia isso na sala de aula? Sei que quando se trata de seres humanos não temos uma receita pronta e cada caso é um caso, mas o senhor poderia nos dar uma dica?

Secchin - Se, na periferia (ou no centro), ouvisse comentários, pejorativos, de que a literatura é coisa feminina, a primeira pergunta que faria aos machões é: o que vocês têm contra a mulher?

Marko Andrade (Rio de Janeiro/RJ): LITERATURA E ETNIAS PROFESSOR ANTONIO CARLOS É UM NORME PRAZER CONHECÊ-LO , E PODER PARTICIPAR DESTA ENTREVISTA, SOU MÚSICO CARIOCA E GOSTARIA DE SABER SUA AVALIAÇÃO SOBRE A LITERATURA QUE TEM ORIGEM NO CONTINENTE AFRICANO, NO PENSAMENTO ACADEMICO COMO ELA ESTÁ PRESENTE? SE ESTÁ PRESENTE? E QUE IMPORTÂNCIA TEM NUMA SOCIEDADE QUE CAMINHA PARA O MULTICULTURALISMO COMO A NOSSA?UM FRATERNAL ABRAÇO E MUITO OBRIGADO.

Secchin - Gosto de vários escritores de origem africana que escrevem em português. A Faculdade onde leciono - Letras, da UFRJ - é das primeiras em que o conhecimento desses autores consta de disciplina obrigatória no currículo de graduação. Ainda assim, penso que o valor intrínseco da obra se sobrepõe ao caráter fortuito da nacionalidade. Não é preciso especializar-se em literatura tcheca para conhecer Kafka. Temo que certas "reservas de mercado" acabem involuntariamente provincianizando o autor, levando-nos a estudá-lo não pelo próprio valor, mas por "representar" o segmento A ou B.

Stella Salim (Itaperuna/RJ): Luciana, obrigada pelo convite, muito interessante e instrutiva a entrevista, aprendi bastante! Olá, Secchin! Por eu ter 14 anos, gostaria de saber como/quando nasceu seu gosto pela literatura, poesia? Você teve algum incentivo quando criança? Há algum autor que usou, no início, como referência? Fico grata antecipadamente!

Secchin - Stella, 14 anos... Espero, daqui a algum tempo, chegar à sua idade, pois, como disse alguém, em poesia juventude é algo que só se conquista com os anos. Não saberia precisar quando nasceu o gosto pela poesia, mas sei que, desde os três anos, recordo-me do gosto pela palavra. Não tive nenhum incentivo especial, mas considero grande fortuna não ter sido cerceado. O autor que me levou à poesia moderna foi Drummond, inesquecível paixão de meus 13 anos, com A rosa do povo.

Cris Alvarez (Belo Horizonte/MG): Querido Poeta, "De minha parte, entendo o poeta como um solitário profissional. Dois poetas juntos já vira complô; três, academia. O poeta deve ser, literalmente, um desorientado e um desconfiado da direção que lhe apontam. Se já sabe para onde vai não vale a pena chegar lá." (ACSecchin)Adorei esta pérola!!... É assim que sinto a poesia... transgressora... solitária... personalíssima... Vento que passa, toca, transforma e se vai... Deixando sabores, marcas, arrepios, mas sem se deixar prender... Como José Régio em seu Cântico Negro: “- Não, não vou por aí! Só vou por onde /Me levam meus próprios passos..."(...) " Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou, /- Sei que não vou por aí! "Por outro lado, respondendo a uma pergunta de Ernesto, você falou sobre a necessidade de se dominar a técnica, disse que "Com ela, a técnica, os alunos farão bons ou maus poemas. Sem ela, não farão nada" Daí, me pus a pensar.. E fiquei confusa... Como poderia este transgressor solitário, que comporta em si vários "inquilinos", aprisionar sua alma à técnica? Não seria, de certa forma, seguir um caminho pré-determinado? E por que um poeta não pode fazer nada sem a "técnica"? A rigor, o que é "técnica"? E a criação? E os mil caminhos que ainda estão para ser descobertos?

Secchin - Termino esses diálogos na comunidade com sua pergunta, e você se mostrou uma sutil e sensível leitora de poesia. Muito interessante a indagação sobre a (in)compatibilidade da técnica e da liberdade. Penso que, no efetivo poeta, a técnica acaba se internalizando, ou seja, torna-se impossível elaborar um poema sem que a maneira de dizer e o conteúdo compareçam com a mesma intensidade. Só o conteúdo é confissão romântica. Só a técnica é floreio parnasiano. Juntar com intensidade as duas faces é poesia.

Luciana Pessanha Pires (Itaperuna/RJ): Para terminar, os versos do nobre poeta:
TODA LINGUAGEM

Toda linguagem

é vertigem,farsa,

verso fingido

no desígnio do signo

que me cria, ao criá-lo.

O que faço,

o que desmonto,

são imagens corroídas,

ruínas de linguagem,

vozes avaras e mentidas.

O que eu calo e o que não digo

atropelam meu percurso.

Respiro o espaço

fraturado pela fala

e me deponho, inverso,

no subsolo do discurso.

(Antonio Carlos Secchin)

Luciana Pessanha Pires: Foi uma alegria aprender com você, Secchin! Muita generosidade sua dispor do seu tempo para dialogar conosco. Grata. Parabéns!

A entrevista foi muito elogiada. Deixo um abraço para todos que participaram e para os que acompanharam o fórum. Encerramos aqui esse encontro.
Obrigada, amigos! Boas Festas e Feliz Ano Novo!

Secchin - Eu é que agradeço, Luciana, pela ocasião de participar de um diálogo fecundo com tantas pessoas que compartilham comigo o amor pela poesia.













Antônio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ, tornando-se sucessor da cátedra anteriormente ocupada por Alceu Amoroso Lima e Afrânio Coutinho. Doutor em Letras pela mesma Universidade. Poeta com cinco livros publicados, destacando-se Todos os Ventos (poesia reunida, 2002), que obteve os prêmios da Fundação Biblioteca Nacional, da Academia Brasileira de Letras e do PEN Clube para melhor livro do gênero publicado no país em 2002. Ensaísta autor de três livros, dentre eles João Cabral; a poesia do menos, ganhador de três prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL em 1987. Em 2001, organizou a Poesia completa de Cecília Meireles, na edição comemorativa do centenário de nascimento da escritora. Em 2003, publicou Escritos sobre Poesia & Alguma Ficção, reunindo cerca de 50 artigos e ensaios. Professor convidado das Universidades de Barcelona, Bordeaux, Lisboa, Mérida, México, Rennes e Roma. Autor de mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios) publicados nos principais jornais e revistas do país e do exterior. Sobre sua obra já escreveram ensaístas como Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo Rouanet José Paulo Paes, André Seffrin, Ivo Barbieri, Fábio Lucas e Ivan Junqueira, entre outros. Eleito em junho de 2004, tornou-se o mais jovem membro da Academia Brasileira de Letras.

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