Thursday, December 08, 2005

Entrevista com Antônio Lázaro de Almeida Prado- 3ª parte


Esta a instigante tarefa que temos pela frente: saber combater os vícios egocêntricos que moldam em nós o homem e a mulher velhos e, esvaziados de nós mesmos, plenos de amor, criar relações sociais e estruturas sociais solidárias e cuja emulação tenha a sua fonte em nossa própria subjetividade, lá onde habita Aquele que é mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos, um Outro que não apreendemos e, no entanto, funda a nossa verdade identidade, a de seres vocacionados ao amor.
Fernando Pessoa olhou para sua própria vida e não se reconheceu no que foi; escondera-se por detrás de máscaras e, corajoso, desabafou:"Vivi, estudei, amei, e até cri,E hoje, não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu...Fiz de mim o que não soube,E o que podia fazer de mim não o fiz.O dominó que vesti era errado.Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-meQuando quis tirar a máscara,Estava pegada à cara."O que você pensa sobre essas máscaras, esses mecanismos utilizados pelo ser humano? Você foi fiel a si mesmo na sua trajetória?
Penso que meu poema Deixa a Narciso responde esta questão.
Deixa a Narciso...
Deixa a Narciso
O fascínio da imagem
Auto-desdobrada.
Deixa fluir o amor,
Inunda-te de amor,
Que tudo mais é nada.
Deixa a palavra voar
Sem ecos redundantes,
Sem peias nos ouvidos
Sem temor à blandice
Do canto das sereias.
Mais sagaz do que Odisseu
Deixa às sereias o canto inútil.
Deixa a Narciso
A autocomplacência
Do egotismo.
Amor repete amor,
Sem ecos infecundos,
Sacia-te de amor,
Essa insaciável fonte
Que não suporta diques,
Nem margens minudentes.
Deixa a Narciso
A oclusão da imagem:
Ama!
Que delícia ler esse poema! Parabéns! "A poesia brasileira não é uma indígena civilizada; é uma grega vestida à francesa e à portuguesa, e climatizada no Brasil; é um a virgem do Hélicon que, peregrinando pelo mundo, estragou seu manto, talhado pelas mãos de Homero, e sentada à sombra das palmeiras da América, se apraz ainda com as reminiscências da pátria, cuida ouvir o doce murmúrio da castalha, o trépido sussurro do London e do Ismeno, e toma por um rouxinol o sabiá que gorjeia entre os galhos da laranjeira."O que pensa sobre essa afirmação?
Outra coisa... Há muito de grego e romano na tradição poética do ocidente?
Você foi fiel a si mesmo em sua trajetória?
Para mim o grande problema de Fernando Pessoa foi não ter encontrado parceiros artísticos proporcionados à sua própria dimensão artística. Seus heterônimos implicaram sempre uma tentativa de buscar parceiros de diálogo. Há um traço doloroso e muito lúcido num quase desespêro de sentir-se só. Julgo que minha trajetória, embora bem modesta, é fiel a uma busca pertinaz de solidariedade humana e que, nessa busca procuro inspirar-me sempre no caráter articulador da poesia.
Qual a ferramenta fundamental de um escritor (poeta)?
Penso que a poesia não se esgota em limites temporais e espaçiais. Os poetas sempre se sentirão solidários com as lições do passado mas sempre empenhados em aceitar os desafios do presente. Assim quando Mário de Andrade dizia: ¨Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil¨nada mais fez do que dizer que, embora buscando sempre o universal, sempre nos sentiremos radicados em nossa própria cultura. Cassiano Ricardo se definiu como ¨Sou local pelos pés/ Pássaro universal pelo pensamento

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