Friday, December 16, 2005

Entrevista com Antônio Lázaro de Almeida Prado- 5ª parte



Mortalhas acadêmicas
"Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Literatura e poesia dão pão para corpo e alegria para a alma. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta... Quando jovem, Albert Camus disse que sonhava com um dia em que escreveria simplesmente o que lhe desse na cabeça. Estou tentando me aperfeiçoar nessa arte, embora ainda me sinta amarrado por antigas mortalhas acadêmicas. Sinto-me como Nietzsche, que dizia haver abandonado todas as ilusões de verdade. Ele nada mais era que um palhaço e um poeta. O primeiro nos salva pelo riso. O segundo pela beleza."(Rubem Alves)O que pensa a respeito dessa expressão:"amarrado por antigas mortalhas acadêmicas"?
Sabe, Antônio, tenho muito medo de afastar-me daquilo que é essencial na minha caminhada. então vivo me perguntando: o que é realmente importante? Tenho convicção de que regras são necessárias, mas tenho ímpetos de contrariá-las, às vezes. Esse poema de Drummond refere-se ao registro de uma experiência deceptiva do Mundo. Denuncia, por exemplo, em “Sociedade” a hipocrisia, a teatralidade obscena da vida regulada por convenções sociais que determinam o primado das aparências. Como você vê essas relações sociais?SociedadeO homem disse para o amigo:— Breve irei a tua casae levarei minha mulher.O amigo enfeitou a casae quando o homem chegou com a mulher,soltou uma dúzia de foguetes.O homem comeu e bebeu.A mulher bebeu e cantou.Os dois dançaram.O amigo estava muito satisfeito.Quando foi hora de sair,o amigo disse para o homem:Breve irei a tua casa.E apertou a mão dos dois.No caminho o homem resmungava:— Ora essa, era o que faltava.— E a mulher ajunta: — Que idiota.— A casa é um ninho de pulgas.— Reparaste o bife queimado?O piano ruim e a comida pouca.E todas as quintas-feiraseles voltam à casa do amigoque ainda não pôde
retribuir a visita.
Pausa
Antônio
O homem percorreu entre o grafismo sobre a pedra e a utilização do papiro e do pergaminho um longo caminho até chegar ao papel. No entanto, parece que outras formas incorporaram-se à vida do homem moderno. Quais os efeitos produzidos pelas novas técnicas de comunicação visual em relação à literatura produzida através do livro tradicional?
Antônio, mais uma vez juntos,obrigada pela oportunidade de usufruir sua presença.Ética jornalísticaNa história contemporânea brasileira a imprensa venceu grandes percalços, como a censura, que mascarava a realidade, contribuindo sobremaneira para o avanço democrático no Brasil. Conquanto nesses últimos anos de imprensa livre, um outro problema surgiu nos meios de comunicação, a questão ética. No decorrer da história política brasileira vários políticos souberam criar fatos, que visaram consolidar suas imagens públicas. A cobertura jornalística sobre política no Brasil sempre foi conceituada como exagerada, pois com a efervescência que ergue-se sobre os meios de comunicação, cada declaração ou gesto de políticos notórios é reproduzida pelos jornais, televisões, emissoras de rádio e internet, sem contudo, representar algo de novo. Como o jornalista Antônio vê esse quadro?
Jornalista há 60 anos sempre me pareceu que o acesso \os bens terciários ( Verdade, Beleza, Convivência) é um desafio proposto aos jornalistas. Dizia Agostinho de Hipona: ¨Todos os homens se comprazem na Verdade. E é fácil prová-lo: embora tenha visto alguns gostarem de enganar, nunca vi ninguém que quisesse ser enganado¨. Oferecer aos auditores e/ou leitores a possibilidade de contactar com a efetiva realidade dos fatos equivale a dar-lhes acesso a um bem terciário ( ou de expansão do ser). Cobrar sempre que os bens primários (ou de sustentação do ser) e os terciários (ou de expansão do ser) beneficiem a todos, sendo que os bens secundários (ou de luxo ou de requinte tecnológico) possam sofrer restrições em situações críticas, parece-me conatural ao exercício da Imprensa. Creio também que um bom jornalista deve denunciar a poluição informacional, vale dizer, o uso pernicioso do marketing, o estímulo ao consumismo e a filosofia do ¨tirar vantagem de tudo¨... Para mim o jornalista deve ser sempre um estimulante potencializador dos bens culturais e um incansável defensor dos direitos humanos.
Manifesto dos intelectuaisCerca de 150 intelectuais do país lançaram recentemente um manifesto criticando a forma como a atual crise política está sendo conduzida. O movimento foi organizado por professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O documento, intitulado "Pela Investigação Rigorosa da Corrupção, pela Punição dos Envolvidos e pela Democracia", pede que as investigações "prossigam até o fim", inclusive "aquelas que apontem em direção à presidência da República", o que poderia levar a um processo de impeachment. O texto dos professores diz ainda que os interesses econômicos de PFL e PSDB fazem com que esses partidos "sacrifiquem" as investigações quando elas atingem o Ministério da Fazenda, "de modo a preservar a política econômica do governo com a qual concordam".O professor de ciências Políticas da Unicamp, Armando Boito, um dos coordenadores do manifesto, afirma que o governo Lula e o PT aderiu às antigas "práticas políticas antidemocráticas".Qual é o seu ponto de vista sobre esse manifesto? Ele procede?
Enquanto cidadãos conscientes, os jornalistas e os intelectuais devem sempre cobrar dos agentes políticos o rigoroso respeito aos bens públicos e a punição exemplar de quem quer que ouse fraudar e se apropriar de bens que devem servir excusivamente à população.
A vida
O poeta dramático espanhol Calderón de la Barca, que nasceu por volta de 1600, escreveu uma peça de teatro intitulada A vida é sonho. Nela ele diz: “O que é a vida? Fúria! O que é a vida? Espuma oca! Um poema, uma sombra quase! E a sorte não pode dar senão pouco: pois a vida é sonho e os sonhos, sonho…”.O que é a vida para o poeta Antônio?
Antônio, por favor, poderia responder as perguntas anteriores?
Quem é o leitor virtual de seu livro?
Como um dos poetas iniciais da Literatura Italiana ¨scrivo per diventar migliore:escrevo para tornar-me melhor¨, Acrescento : escrevo para conviver melhor. Meus poemas, meus livros, meus ensaios sempre se voltam para leitores e/ou auditores que saibam que a Poesia ( como as demais Artes) só pode produzir-se ou receber-se através do exercício das melhores virtualidades humanas.
A vida...
A vida, para mim, é um bem inestimável, cuja manutenção deve ser obrigação de todos os homens e mulheres. Nascemos e fomos criados para ter sempre mais vida. Mas, como espíritos em condição carnal, não podemos pretender-nos absolutos. Creio que, cumprido nosso estágio cronológico (que vai do nascer ao morrer) a vida apenas se transforma, sem ser destruída. E A PRESERVAÇÃO DELA TEM QUE SER CONQUISTADA E CONSTRUÍDA, DESDE AGORA PELO EXERCÍCIO DO AMOR. O amor como lembrou Dante Alighiere, permite-nos ¨transumanar¨, isto é ir além das naturais limitações humanas em direção ao ¨Amor que move o sol e as demais estrelas¨. Com Lêdo Ivo acredito que ¨o tempo é uma mentira das estrelas¨. e que chamados à vida a ela somos destinados para além do acidente ( superável) da morte...

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