Tuesday, February 07, 2006

Entrevista com Pedro Demo- 1ª parte-




Como tudo começou


No dia 03/02/06, Pedro Demo esteve em Itaperuna para uma palestra com professores. Eu estava presente e no final, entreguei para ele uma carta convidando para uma entrevista na comunidade Discutindo Literatura.Recebi a resposta da carta. Ele enviou por e mail.
A resposta:
Luciana:
Li sua carta e entendi seu pedido. Quero lhe desejar bom sucesso, pois vejo-a comprometida com leitura da maneira mais brilhante possível. Parabéns. Posso fazer a entrevista. Quanto a entrar no ORKUT, ainda não o fiz, porque o ambiente poderia ser difícil para mim, por conta da exposição excessiva. Por enquanto, não gostaria. Grande abraço. Pedro Demo.
A entrevista foi realizada na comunidade Discutindo Literatura, no orkut, com início no dia 06/02/06.
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=3332336&tid=2446342620812795555&na=4&nst=0&nid=3332336-2446342620812795555-2446464469034983075
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Sobre Pedro Demo:
Nasceu em Pedras Grandes, Santa Catarina, em 1941, de pais agricultores (viticultores), onde fez a escola primária. Com nove anos entrou no Seminário dos Franciscanos em Rodeio, SC, e depois em Rio Negro, PR, para, a seguir, cursar até ao segundo grau em Agudos, SP (até 1960). Cursou Filosofia na Faculdade dos Franciscanos, Curitiba, 1961-1963. Três anos de Teologia em Petrópolis e estudo de Música, 1964-1966. Doutoramento em Sociologia, Alemanha, 1967-71. Defesa de tese a 28.01.71. Nota máxima, premiada, publicada em alemão em 1973, na Editora Anton Hain, Meisenheim (Herrschaft und Geschichte – Zur politischen Gesellschaftstheorie Freyers und Marcuses). Pós-doutoramentos na Universität Erlangen-Nürnberg (Nürnberg) (Alemanha), março a junho de 1983, com Prof. H.-A. Steger, e na University of California at Los Angeles (UCLA), agosto de 1999 a abril de 2000, com Prof. Carlos A. Torres.
Maiores informações no Blog do autor.
A entrevista:
1- Jussara Midlej- Ipiaú- BA
Excelente iniciativa em entrevistar Pedro Demo, Luciana!
Questões:
A consciência ingênua do brasileiro é fruto da pobreza sócio-econômica? Essa pobreza política brasileira tem cura? De que modo a pesquisa-ação poderá ampliar as possibilidades de intervenção no fenômeno social?
Pedro Demo:
As pessoas não são imbecis, mas podem ser imbecilizadas. Esta ignorância cultivada é o que chamo de pobreza política, que não é outra pobreza, mas outra face da mesma miséria. É a condição de massade manobra, a inabilidade de se confrontar com a exclusão na posiçãode sujeito.
2- Luciana Pessanha Pires- Itaperuna- RJ
Pedro, li um fragmento de uma entrevista sua no site http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0035.asp"Um dos exemplos que o senhor dá para desmistificar a importância da aula é o livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaardner. Por que um livro como esse consegue instigar o aluno a aprender e a aula expositiva não?
Pedro Demo - Nós podemos trabalhar muito melhor também só com textos. Geralmente, no Brasil, só se faz fichar livros, o que não tem nada de reconstrutivo. E O Mundo de Sofia mostra bem como um professor "escondido" motiva, provoca a criança. Ela se desespera, trabalha, dá duro, aprende muita coisa sem que o livro tenha uma aula, uma prova, e é uma aprendizagem soberba. Então, a escola tem que cuidar da aprendizagem e não dos apoios que os professores acham importantes, em particular ficar “escondido” atrás da aula."
Minhas perguntas:
Que sugestões daria para um professor que quer formar alunos leitores? Por que a resistência com a leitura? Que estratégias sugere para as aulas de Literatura?
Pedro Demo:
Não é necessário acabar com a aula. Critico acerbamente a aula instrucionista. Sócrates, considerado por muito o maior educador detodos os tempos, nunca deu aula e passou prova...
3- Vera Vilela- Penápolis-SP, residente em Bauru
Você concorda com o sistema de criação de cotas para acesso às faculdades? Acha o melhor caminho? Que outros caminhos poderiam existir?
Pedro Demo:
Não concordo com os critérios de seleção -sugeriria que o critério fosse ter sido aluno de escola pública. Mas é importante que as minorias tenham oportunidade, já.
4- Luciana Pessanha Pires- Itaperuna- RJ
Outras perguntas, Mestre:
Que política de leitura deveria ser implantada pelos nossos Governos?Como a escola deve trabalhar as múltiplas linguagens?Que mudanças devem ser feitas durante a alfabetização no diz respeito ao ensino da leitura da imagem?
Pedro, o que seria uma política social do conhecimento, tipicamente emancipatória e pós-moderna?
Pode falar sobre suas considerações a respeito da obra de Maturana sobre a “autopoiesis”?
Pedro Demo:
Muita coisa pode ser feita, desde acesso mais barato e facilitado a livros, presença de bibliotecas em todas as escolas, acesso virtual(base de computadores nas escolas), além de eventos que fomentem a leitura. Lê-se muita coisa no país, mas em geral de estilo mais fútil, além do que a escola mantém uma linguagem antiquada.
5- Talvani Guedes da Fonseca- Natal - Rio Grande do Norte
Pode nos falar acerca da oportunidade da pedagogia da libertação, de Paulo Freire?
Pedro Demo:
Ainda está em alta... O oprimido que não sabe confrontar-se, adota o opressor.

6- Maria Antonia Soares- Presidente Venceslau- SP
Questionamento sobre o curso Normal Superior...
Desde que foi promulgada a nova LDB as Instituições de Ensino Superior que procuraram se adequar a ela abriram o curso Normal Superior. Qual não foi a surpresa ao ser informada pelo MEC que este curso foi extinto, prevalecendo como curso formador para o Magistério das Séries Iniciais o curso de Pedagogia, tão desprestigiado nestes últimos anos. Em algumas IES o Normal Superior foi iniciado em 2005 e até em 2006.Como o senhor explica esta incoerência, de aprovar cursos com a finalidade de atender a LDB para fechá-los em seguida?Agradeço sua atenção para o meu questionamento.
Pedro Demo:
A idéia já nasceu torta, porque encurtada. Como o professor é o representante mais lídimo da sociedade do conhecimento, não pode andar de conhecimento curto...
7- Rodrigo Romeiro- RJ
Bem, a princípio gostaria de dizer que fui prof. do Estado, na época do 2º Programa Especial de Educação do governo do ex-governador Brizola. Isso por volta de 1994. Era o programa que atendia aos CIEPS e que foi muito criticado pelo pessoal da SEE. Bom, como sei que Pedro Demo fez parte desse programa, gostaria de perguntar se esse programa sobrevive, de alguma forma, ainda na rede. Digo a filosofia que que embasava o programa. E também se esse brilhante pesquisador concorda com o rumo que o Estado do Rio tem dado à Educação pública. Obrigado.
Pedro Demo:
Não me recordo de ter feito parte. Trabalhei bastante no tempo da Lia como Secretária de Educação do Estado. De modo geral, a aprendizagem está em queda, no país todo e também no Rio. Há infindos problemas aí implicados, de fora e de dentro da escola. A direção que temos hoje está muito equivocada. Se continuarmos fazendo na sala de aula o que estamos acostumados a fazer, vamos ladeira abaixo. É preciso parar e repensar radicalmente, em particular cuidar que o aluno aprenda. Mais ainda: garantir a alfabetização na 1a série.

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